Saúde e Bem-Estar

Homem chora sim

Denise Drechsel
18/07/2005 00:22
As mulheres procuram os psiquiatras por causa de depressão duas vezes mais do que os homens. Mas isso não significa que a incidência da doença neles seja menor. Não há estatística sobre o assunto, mas os especialistas dizem que há uma certa resistência cultural do homem a procurar ajuda quando está em jogo a possível existência do “temido” diagnóstico da doença.
“A depressão se choca com preconceitos da sociedade atual, que ‘homem que é homem não chora’. Depressão é exatamente, entre outras coisas, choro. Mas freqüentemente isso é escondido, muitas vezes inconscientemente. Como se tristeza fosse manifestação de fraqueza e feminilidade”, diz o psiquiatra Elio Luiz Mauer, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR). “É preciso saber que há uma doença que é capaz de deixar as pessoas tristes, mal-humoradas e sinistras. Não reconhecer e transformar isso em uma questão pessoal pode ser pior”, afirma.
O diagnóstico da depressão é igual em ambos os sexos. Mas as mulheres têm mais facilidade de admitir a tristeza e ir ao psiquiatra, profissional apto a lidar com a doença. Os homens tendem a procurar o clínico-geral e apresentar mais queixas físicas como o mal-estar generalizado. De acordo com Mauer, há casos de pessoas que passam mais de 20 anos deprimidas até procurar tratamento correto. Quando começam, se dão conta do tempo perdido sem qualidade de vida.
“Os homens têm dificuldade de reconhecer doenças em geral. Mas como a depressão atua como um gás que impregna em todos os aspectos da vida, eles costumam recorrer aos médicos só quando o financeiro começa a ser prejudicado, as coisas estão indo de mau a pior e o desempenho no trabalho está sendo afetado”, afirma Mauer.
O conselho do médico é ficar atento à perda de interesse geral pela vida. “Quando o indivíduo começa a não ter prazer nas coisas do dia-a-dia que antes gostava, como fazer esporte, conversar com os amigos, exercer seu hobby, é o momento de perceber que algo pode estar errado”, avisa.
Entre os efeitos, a depressão atinge o desempenho sexual, altera a qualidade do sono, a atuação profissional, torna a convivência difícil e pode levar a outros problemas como o alcoolismo. Mas o tratamento, feito em geral de forma multidisciplinar – por meio de medicamentos e sessões de terapia –, é eficaz em cerca de 80% dos pacientes.
Preconceito
Já passou a época em que se dizia que a depressão como doença existia apenas na mente dos psiquiatras. Estudos do Banco Mundial, publicado em 1996, da Organização Mundial da Saúde e a Harvard University comprovam que a doença é uma das que mais causam prejuízos no mundo. Mesmo assim, apenas cerca de um quarto das pessoas deprimidas procuram tratamento. “Trabalhos interessantes mostram que no máximo entre 22% a 32% da população com depressão vai ao psiquiatra”, diz o psiquiatra Saint Clair Bahls, pesquisador e professor do UnicenP e da UFPR.
Outro alerta dos médicos é sobre a imprevisibilidade da doença, por vezes provisória, por outras cíclica. “Cerca de 40% dos quadros depressivos não se repetem e em 4 a 9 meses de tratamento a pessoa melhora. Mas os outros 60% tendem a ficar com um quadro crônico e, nesses casos, o acompanhamento médico não pode faltar”, informa Bahls.