Saúde e Bem-Estar

Menos 50 quilos e história de motivação para obesos

Camille Bropp Cardoso
15/06/2015 08:00
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Felipe ao lado do pai (à esq.); no auge do peso, aos 20 anos; participando de maratona;  correndo ao lado do amigo Diogo; e malhando com treinador. (Fotos: Arquivo Pessoal)
Obeso desde a infância, o empresário curitibano Felipe Bulek, 23 anos, conseguiu um feito. Perdeu mais de 50 quilos em seis meses — resultado típico de cirurgia bariátrica, mas sem precisar dela.
A história de Bulek (ainda chamado de Felipão) mostra que criar um projeto pessoal com apoio de família e de amigos pode ser um caminho interessante para quem já tentou tudo para perder peso sem sucesso. O projeto foi documentado em uma websérie e chamado de #VaiFelipão.
Ele garante que a história pode ser repetida por qualquer pessoa — desde que com ajuda de profissionais. “Tivemos relatos de muita gente que se inspirou no projeto e conseguiu emagrecer”.
Abaixo, a história dele:
Há dois anos, eu tinha 151 quilos e era portador de uma doença chamada obesidade mórbida. O mais crítico dessa doença é que eu não me sentia doente. Tinha dificuldades como amarrar os sapatos, subir escadas e não conseguir jogar uma partida de futebol por mais de dez minutos sem ficar extremamente fatigado. Mas eu estive nessa situação desde sempre. Nasci com 5 quilos e 100 gramas e fui obeso durante toda infância e adolescência.
Eu era uma criança feliz, não gostava de esportes mas me divertia a minha maneira. Meus pais sempre procuraram formas de me fazer emagrecer, mas quem tem filho obeso sabe que essa não é uma tarefa fácil como parece. O fato é que, apesar de tudo, ser gordo sempre me incomodou, desde a infância. Eu queria poder jogar futebol melhor e não ser visto como “o gordinho da turma”. Mas nunca considero que sofri muito com bullying ou deixei de ter amigos por causa da obesidade. Sempre fiz bastante piada comigo mesmo, ainda que me incomodasse quando pessoas estranhas ou pouco chegadas faziam piada.
Saúde
Mas algumas coisas começaram a acender a luz amarela para mim. Estava com 22 anos, apresentando um quadro de hipertensão arterial e esteatose (gordura no fígado), problemas que poderiam levar a doenças mais graves como infarto e cirrose. Meu índice de gordura corporal era de 41,5%. Eu precisava de um impulso pra mudar de vida, e esse impulso veio através do meu amigo Diogo [dos Reis Ruiz, sócio de uma produtora de vídeos que documentou o projeto].
Eu havia tentado perder peso várias vezes. O que faltava era a continuidade. Depois de dois meses de dieta e o resultado ainda longe, faltava motivação para continuar. Acabava saindo da linha e desistia. O mais difícil sempre foi me adaptar à alimentação, passar a comer mais vezes durante o dia e trocar doces por frutas. Mas não sabia bem o que comer, como me exercitar. Não tinha esperança de conseguir emagrecer sozinho e nunca cogitei fazer cirurgia bariátrica. Para mim, é o cúmulo do absurdo existirem pessoas que engordam os últimos quilos necessários só para fazer essa cirurgia. Então, não sei, acho que ficaria gordo para sempre.
Ele e Diogo dividindo espaço com os ônibus de Curitiba na corrida. Ele e Diogo dividindo espaço com os ônibus de Curitiba na corrida.
Projeto
Com ajuda do Diogo, montei um projeto. A pessoa que quer mudar de vida tem que criar um projeto pra si, procurar ajuda profissional e envolver todos ao seu redor nesse projeto. Fazendo isso e acreditando em si mesmo, tem a fórmula para fazer dar certo. Esse é o “segredo”, é o que falo a todos que me perguntam. Quando falta otimismo, talvez seja o caso de incluir no projeto um psicólogo, por exemplo.
Minha meta era emagrecer 51 quilos em seis meses. E nunca teria conseguido se não fosse em grupo. Ter alguém para correr comigo fez do exercício um momento de descontração do meu dia e hoje me considero um apaixonado pela corrida. Envolver a família e os amigos no projeto faz toda a diferença. Porque o outro problema de tentar perder peso sozinho era o descrédito. Ao mesmo tempo em que as pessoas dizem que você deveria emagrecer, ficam oferecendo comida. Não entendem que você está querendo mudar de vida. Chamam para beber, para churrasco. Reclamam se você não vai.
No meio do caminho, com as calças já sobrando. No meio do caminho, com as calças já sobrando.
Dieta
Adotei uma dieta normal, com carne magra e carboidratos complexos. Ou seja, não era só frango com batata doce, mas frango com macarrão ou arroz integrais. Também acho que não existe como fazer dieta sem nutricionista, é impossível. Eu não falava só de dieta, mas pensava nela, sim, todos os dias. Via os resultados e isso me motivava. Mas tive meus percalços. No segundo mês perdi “só” 9 quilos, quando achei que poderia perder mais. Então no terceiro mês me empenhei mais nas corridas e perdi 10 quilos.
Consegui emagrecer em seis meses mais de 50 quilos, um resultado parecido com o que teria com uma cirurgia e sem a dor, transtornos e efeitos colaterais. Sou uma nova pessoa, e posso dizer que tudo melhorou. Ânimo, fôlego, flexibilidade, autoestima e, principalmente, saúde. Continuo fazendo atividades físicas quase que diariamente, e tenho a mim mesmo, amigos e família pra me ajudar a controlar a alimentação. Fazendo isso, não tem erro. Não sou mais hipertenso nem apresento esteatose, me considero um apaixonado por esporte e pretendo ajudar pessoas a seguirem o mesmo caminho que eu.
Campanha
O mundo não está preparado para obesos, assim como não está para pessoas com deficiência física. Muita coisa poderia ser repensada para facilitar a vida dos obesos, mas por outro lado acredito que a obesidade deveria ser mais combatida, principalmente pelo governo e grandes mídias. A obesidade tem que ser tratada como uma epidemia e a divulgação do combate a ela deveria ser semelhante a do câncer de mama e da dengue.
Reconheço que existe, sim, muita pressão do mundo para que a pessoas emagreçam. Mas vejo que isso não ocorre por saúde. Tudo sai do campo da saúde e entra na percepção estética. Acho que uma campanha legal seria alertar sobre os perigos da obesidade, mas batendo na tecla de que “estética” pouco importa, vale a saúde. Eu mesmo não sou uma pessoa magra hoje, mas sou saudável. É isso o que importa.