Imbatíveis em convencer o consumidor de que o suficiente está sempre além, os norte-americanos estão ensinando ao mundo que há sempre mais espaço em nossos estômagos e guarda-roupas. Porém, a má alimentação é apenas uma consequência do estilo de vida em que o excesso é uma regra e o imediatismo toma conta da nova geração, segundo o psiquiatra e endocrinologista inglês Peter Whybrow, diretor do Instituto de Neurociência e Comportamento Humano da Universidade da Califórnia.
Autoridade mundial em distúrbios maníaco-depressivos, Whybrow esteve em Curitiba no fim de novembro a convite do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe para falar sobre “as consequências da sociedade de consumo” no Simpósio Internacional de Neurociências. Na ocasião, concedeu entrevista à Gazeta do Povo.
Para o psiquiatra, os norte-americanos e o restante do mundo que os têm como exemplo estão perdendo a noção do que é demais. E isso não se limita ao tamanho das porções colocadas à mesa – que se reflete na obesidade que atinge um terço daquela população –, mas também à relação que as pessoas desenvolveram com a tecnologia. “É o que eu chamo de cocaína tecnológica”, define Whybrow sobre a questão que analisa em seu livro mais recente, American Mania: When More is Not Enough, ainda sem versão em português. “Gostamos de coisas em curto prazo, queremos recompensas imediatas”, explica. O laptop, o videogame, a tevê e os smartphones nos colocam em constante estado de alerta, o que resulta em uma maior liberação de dopamina, neurotransmissor que age no sistema límbico cerebral – o centro das emoções – e está relacionado às sensações de expectativa e prazer.
Segundo ele, a parte “humana” do cérebro necessita de tempo para fazer escolhas. Quanto mais se reduz esse tempo, mais estressados ficamos. “Por isso, tantas pessoas sentem-se infelizes nesta sociedade caótica e de extrema pressão. Não temos estrutura para isso”, diz.
Entrevista A angústia do excesso e do imediatismo
O psiquiatra inglês Peter Whybrow (foto), da Universidade da Califórnia, ensina aos pais como estimular a curiosidade nas crianças.
Como nosso cérebro reage aos estímulos constantes?
Nós gostamos disso. Nossa parte mais primitiva do cérebro, que dividimos com outros animais, é responsável pela excitação de curto prazo. Por uma questão de sobrevivência, estamos interessados em qualquer mudança no ambiente. Todos os animais são assim: estão sempre atentos a mudanças nas luzes, nos sons e nos movimentos.
E de que forma isso nos prejudica?
Cria para o indivíduo uma falsa urgência, afinal a maior parte das coisas não são tão urgentes. Nessa pressa você perde a oportunidade de olhar para o mundo de uma forma mais ampla, de conhecer melhor as pessoas. Especialmente pra os jovens, a tecnologia é viciante.
Como a cultura dos excessos afeta nossa saúde?
Nosso cérebro precisa de tempo para processar as coisas e de se fascinar com suas próprias descobertas. A falta de tempo gera angústia. Não temos mais tempo livre. Uma vida agitada, com poucas horas de sono, leva à depressão e à diabete, pois comemos mais e pior quando dormimos pouco. Quanto maior o peso, menos exercícios fazemos. Vira uma bola de neve.
Com tantos estímulos eletrônicos, é mais difícil manter crianças focadas?
Uma criança que brinca sem muitos recursos cria todo tipo de coisas imaginárias e fascinantes com quaisquer objetos. Em uma sociedade tecnológica, explorar o mundo torna-se algo raro, e elas ficam entediadas quando algo não acontece todo o tempo, pois nunca conheceram a fascinação de estimular a si próprias.
Como manter e desenvolver a curiosidade nas crianças?
Permitindo que elas façam coisas sozinhas. Você não ensina fazendo tudo por elas, você deve criar um ambiente de confiança e de segurança e permitir que descubram coisas por si – algo que não acontece mais.
E dar a elas tempo para desenvolver habilidades. Porém, hoje ninguém mais tem tempo para isso.