Saúde e Bem-Estar

Unidos emagreceremos!

Amanda Milléo
08/09/2013 03:04
Foi-se o tempo que ser gordinho era sinônimo de criança saudável. E o apoio da família ao tratamento da obesidade infantil é a chave para combater os quilos a mais. Caso contrário, os pais tornam-se os maiores sabotadores dos filhos, alertam os especialistas. Afinal, mudar o que a genética predispõe não é tarefa de uma pessoa só, ainda mais quando se é criança.
Doze meses é o período máximo que uma criança normalmente fica em tratamento contra a obesidade, quando a família toda assume o compromisso. “No consultório, percebo que a criança segue tudo à risca. Quem costuma sabotar são os pais. Por isso, o tratamento tem dois momentos: com a criança, para modificar o comportamento alimentar, e depois com os pais, orientando a seguirem a dieta. A mãe tem de sumir com as guloseimas. Não dá certo ter bolacha em casa para outra criança mais magra ou ter refrigerante para toda a família”, diz a psicóloga clínica e especialista em obesidade e transtorno alimentar Denise Cerqueira Leite Heller.
A imposição de limites é essencial e a comida não deve ser usada como forma de acalmar a criança, conforme explica o diretor do Departamento de Nutrologia Pediátrica da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), Carlos Alberto Nogueira de Almeida. “Se a família, toda vez que a criança faz birra, oferece um doce para parar, esse comportamento predispõe à obesidade.”
Para mudar
Tentar compreender os pensamentos da criança com sobrepeso é um fator importante no tratamento. “Gordinhos não falam, comem. A psicóloga ensina a criança a ser assertiva, a desenvolver a capacidade de falar o que está pensando e sentindo. Os pais não sabem o que faz a criança buscar a comida. Quando pergunto para eles se sabem que o filho come quando está triste, quando está com raiva, eles desconhecem esta dinâmica”, comenta a psicóloga.
A renovação do cardápio diário pode ser uma etapa mais fácil de ser administrada em casa. O problema maior, segundo especialistas, está em achar tempo para levar o filho às atividades físicas. “As crianças de hoje não têm ninguém com paciência para levá-las às aulas de dança, de vôlei, de futebol. Elas não podem sair andar de bicicleta na rua porque a violência é muito grande e acabam presas na frente da tevê”, diz a psicóloga Denise Heller, assinalando ser comum que os pais desenvolvam, por esse motivo, um sentimento de culpa.
Conscientizar a família e fazer com que todos estejam de acordo com as pequenas e constantes mudanças é um longo processo. “Quando a mãe vem à consulta com o filho, nem sempre está pronta para assumir as mudanças. Às vezes ela passa a responsabilidade ao filho, mas não percebe que ela tem papel fundamental na questão. A criança ou adolescente precisa de regras e de apoio”, diz a nutricionista e professora do curso de Nutrição da PUCPR Caroline Filla Rosaneli.
Reflexão
Gordinho, fofinho, obeso?
A cultura do brasileiro ainda teima em acreditar que a criança acima do peso esbanja saúde, quando na ­­realidade a obesidade ­­tornou-se uma doença crônica entre adultos. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no país, 49% das pessoas com 20 anos ou mais estavam acima do peso em 2010 e 15% estavam obesos. Com relação às crianças entre 5 e 9 anos, um em cada três (33,5%) tem excesso de peso e 14,3% são obesas. Normalmente, de acordo com a nutricionista clínica Luciana Papp, é o pediatra quem identifica se a criança apresenta indícios de desenvolver a obesidade, por meio das curvas de crescimento. “Tudo é levado em consideração. A descendência da criança, o porte físico, a altura. Tudo é avaliado com muito cuidado”, indica.
Cardápio sempre natural
A família da massoterapeuta Helena Taborda sempre foi adepta do estilo de vida saudável. Avessos aos fast ­­foods, eles preferem comida caseira, com muita salada e evitam ao máximo o refrigerante. Por isso, o sobrepeso da filha Eduarda, de 9 anos, veio como uma surpresa para Helena. “Um pouco é genético. A gente faz tudo de acordo, mas sempre dá para melhorar. Trocamos o arroz normal pelo integral, comemos mais vegetais cozidos e, de sobremesa, frutas”, comenta. A experiência com sobrepeso é familiar a Helena, que não quer o mesmo para a filha e a incentiva a praticar exercícios. “Ainda nos batemos para levá-la ao judô e a natação por causa da falta de tempo, mas ela gosta muito. Por isso, fazemos um esforço”, relata.
Família em atividade
Reduzir os doces foi o primeiro passo da analista de tecnologia da informação Josmara Malaquias quando percebeu que o filho Vitor não queria mais sair de casa por causa do sobrepeso. “Até hoje não consegui incluir muito a salada na alimentação, mas não tem mais fritura, nem bolacha, chocolate em pó, cereal, só muita fruta, suco natural e isso tudo com exercícios físicos”, conta Josmara, que é mãe também de Matheus, irmão gêmeo de Vitor, das gêmeas Amanda e Nathália e esposa do Amarildo.
Para o tratamento funcionar, a família toda entrou na rotina de alimentação saudável aliada a exercícios. Hoje, com 18 anos, Vitor agradece aos pais pela mudança. “Não havia dietas loucas, mas a família inteira entrou no esquema. Agora todos fazem academia e eu acabo acompanhando os meninos”, diz a analista.
Consciência veio tarde demais
Daniela Anile teve mais dificuldades em superar o sobrepeso na infância. A estagiária de TI, de 23 anos, conta que a família sempre regulava o que ela comia e os exercícios que praticava, mas nunca se envolveu na reeducação alimentar da filha. “Quando minha mãe não me deixava comer algum doce, eu comia escondido no colégio, no terminal de ônibus a caminho da escola”, conta.
Ainda na adolescência, ela começou a entender melhor a importância em controlar a alimentação, mas foi no início da fase adulta que a consciência bateu. “Em dezembro do ano passado fiz a cirurgia bariátrica e a partir de então eu controlo mais a alimentação e faço musculação e caminhada de segunda à sexta.”
Para ajudar as crianças da família, Daniela sempre orienta os primos e sobrinhos a regularem aquilo que comem. “Eu oriento, tento ajudar, mas sei que é difícil entenderem principalmente por serem crianças. Se minha família tivesse se envolvido na infância, talvez eu não precisasse ter chegado até a cirurgia”, relata. Para incentivar o exercício físico, Daniela não perde tempo e sempre que pode apresenta à sobrinha Alice, de um ano e três meses, os benefícios das atividades.