Saúde e Bem-Estar

Veganos desde criança

Melissa Medroni, especial para a Gazeta do Povo
20/12/2012 02:30
Oito por cento da população brasileira das principais cidades e regiões metropolitanas declara-se vegetariana, em pesquisa divulgada em novembro pelo Ibope. Curitiba é a segunda capital com o maior número de adeptos (11%,) perdendo apenas para Fortaleza (14%).
Nesse cenário, cresce o número de crianças acostumadas desde cedo a rejeitar produtos de origem animal. As restrições aumentam conforme a filosofia: para o veganismo, não são aceitos nem mesmo os alimentos extraídos de animais, sem abatê-los, como leite e ovos.
Legumes, grãos e verduras são os ingredientes principais das refeições. Nos lanches, a aposta é em pães caseiros, homus (pasta de grão de bico), geleias, tofu, frutas frescas ou secas, castanhas diversas, amendoim e produtos industrializados veganos.
Mas qual o impacto dessa escolha no desenvolvimento infantil?
Infância
O biólogo fundador da Sociedade Vegana, Sérgio Greif, e o diretor de Nutrologia Pediátrica da Abran, Carlos Alberto de Almeida, debatem sobre os limites da introdução de uma dieta vegetariana pura para as crianças:
É possível substituir os nutrientes dos alimentos de origem animal?
Sérgio Greif
Sim! Os nutrientes de origem animal são os mesmos dos de origem vegetal. E a maioria dos nutrientes que não está nos vegetais pode ser sintetizada a partir de precursores desses alimentos – à semelhança da síntese realizada pelos animais – ou são obtidos de outras fontes,artificiais ou minerais.
Carlos Alberto de Almeida
Não! O homem primitivo retirava todos os nutrientes dos vegetais, mas nosso sistema metabólico modificou-se ao achar fontes mais fáceis. O leite é usado na alimentação humana há 11 mil anos. Nosso sistema digestivo acostumou-se a retirar cálcio do leite. Não se muda isso da noite para o dia, é um processo que leva milhares de anos.
A criança vegana precisa de algum tipo de suplementação?
SG – Não! A alimentação vegetariana bem planejada não implica em risco adicional ao desenvolvimento. Mesmo quem consome carne com frequên­cia pode ter menor aporte de ferro, zinco, cálcio, vitaminas do complexo B e hidros­solúveis. Crianças veganas podem estar em risco das mesmas carências, mas isso não é inerente ao vegetarianismo.
CAA – Sim! A criança vegana corre o risco, principalmente, de ter deficiência de zinco e ferro, encontrados na carne, e de cálcio e vitamina D, provenientes do leite. Por isso recomendo suplementação, o que deve ser feito por um médico, através de um acompanhamento laboratorial, de acordo com a idade. Não por automedicação.
A alimentação vegana pode ser introduzida na infância?
SG – Sim! As crianças devem receber exclusivamente o leite materno no primeiro ano de vida e depois podem se alimentar apenas de produtos vegetais.
CAA – Não! O ideal é que a escolha seja feita somente na idade adulta. Uma criança precisa ter uma dieta normal que inclua todos os alimentos da pirâmide alimentar.
A dieta vegana deve ser acompanhada por um profissional?
SG – Sim! Toda criança deve ser acom­pa­nhada por um pediatra, indepen­dente­mente da dieta. Opte por um profis­sional que aceite a opção e que aconselhe dentro dessa vertente. Caso o médico vá contra, mude de profissional.
CAA – Sim! É indicado o acompanhamento com alguém que entenda do assunto, um profissional habilitado, de preferência um pediatra com especialização em nutrologia.
A criança deve participar da opção pela dieta vegana?
SG – Sim! Se a pergunta for se temos direito de aplicar aos filhos o que escolhemos para nós a resposta é que, em geral, o fazemos. A criança é um livro em branco, onde escrevemos o que queremos, mas só até elas assumirem a caneta.
CAA – Sim! A criança deve ser ouvida
de acordo com a idade e maturidade e pode participar de algumas escolhas. Tem o direito, por exemplo, de não gostar de certos alimentos. Mas os pais são os responsáveis finais.
Serviço
Sociedade Vegana: www.sociedadevegana.org. Associação Brasileira de Nutrologia: www.abran.org.br.