Saúde e Bem-Estar

Viciados em gotinhas

Mariana Scoz
20/12/2012 02:26
Dormir com o nariz entupido é difícil para qualquer um. E os descongestionantes nasais de uso tópico, aquelas gotinhas de pingar no nariz, são uma mão na roda para quem quer respirar melhor: são de fácil acesso, baratos e dão alívio quase imediato. Mas o uso desmedido pode se tornar um vício e piorar ainda mais a respiração.
O descongestionante nasal é um vasoconstritor. Ele contrai os vasos do nariz, liberando espaço na fossa nasal e desobstruindo a respiração. Seu uso deve ser feito com avaliação e prescrição médica. Mas como sua compra não é restrita, muitos o utilizam sem passar por um otorrinolaringologista.
“Por ser vasoconstritor, o uso prolongado pode ter reações na corrente sanguínea, causando taquicardia e aumento da pressão arterial”, explica Diderot Parreira, membro da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia. Segundo ele, o uso do medicamento deve ser evitado, e sua indicação deveria ser limitada ou até mesmo proibida. ca.
Outro problema é a rinite medicamentosa. Com o uso descontrolado, o nariz sofre alterações fisiológicas, o que causa obstrução nasal crônica. “As células da mucosa ficam mais resistentes e é necessário usar o medicamento ainda mais e com maior frequência”, diz o otorrinolaringologista do Hospital Vitória Paulo Przysiezny.
Caso a obstrução persista por mais de cinco dias, deve-se procurar outro tipo de tratamento, segundo Cezar Berger, otorrino do Instituto Paranaense de Otorrino­­larin­gologia. “O uso por conta própria pode mascarar outros problemas, aliviando apenas um sintoma”, explica.
Nariz trancado
Um frasco no bolso, dois outros em casa
Sair de casa sem o desconges­tionante nasal causa efeitos imediatos em José Carlos Bezerra Filho, 23 anos. O estudante de engenharia civil afirma que, se colocar a mão no bolso e perceber que esqueceu o produto em casa, o seu nariz fica trancado como se fosse mágica. “Ao acordar, a primeira coisa que faço é pingar as gotas. Antes de dormir, a mesma coisa”, conta ele, que guarda mais dois frascos em casa. “Quando estou bem, um tubinho dura uma semana. Quando estou com a rinite atacada, dura apenas três dias”, diz.
José já tentou se livrar da dependência, mas sem sucesso. A primeira foi aos 13 anos, com o acompanhamento de um otorrino. Aos 16, acabou voltando a usar o produto. “Fiz tratamentos com remédios, mas assim que eles eram retirados, voltava a usar o descongestionante”, lembra. O próximo passo será uma cirurgia para corrigir um desvio de septo.