Gasolina, a vira-latas independente
Eles mantêm uma relação aberta, na qual o único compromisso é um fazer bem ao outro. A vira-lata Gasolina faz companhia e garante diversão ao cobrador de ônibus Afonso Anschau. Em troca, ele lhe dá comida e carinho.
Como Gasolina deixou claro ainda no início da relação, que começou há cerca de seis meses, ela não aceita amarras. “Já tentei levá-la para ficar na minha casa, mas não adiantou, ela foge. Outras pessoas também tentaram adotá-la, mas ela sempre escapa”, diz. O cobrador conta que a conquistou pelo estômago. “Um dia, a levei até minha casa e lhe dei salsicha cozida para comer. Desde então, nos tornamos bons amigos. Aliás, salsicha é seu prato favorito, de preferência cozida, sem molho e numa porção generosa.”
Mas Gasolina não encanta apenas Anschau. Às 5 horas, ela acompanha as atendentes de um posto de combustível da estação tubo onde ela fica até o início do trabalho das moças. “A gente desce do ônibus e Gasolina já está lá, nos esperando. Atravessa a rua do nosso lado e depois volta, isso há quase um ano”, conta a vendedora da loja de conveniência, Alisandra Pereira. Aliás, foram os funcionários do posto os responsáveis pelo nome da cachorra. De vira-latas sem dono virou Gasolina por causa da cor do pêlo. “Demos o apelido e hoje ela atende quando a chamamos por esse nome”, diz.
Quando Anshau chega ao tubo, por volta das 5h30, ela se aquieta. Fica deitada enquanto ele trabalha. Nos dias de frio, procura o sol e se está calor, uma sombra. “Ela é bem carinhosa e brincalhona. No meio da manhã, o cobrador pega sua bicicleta e vai para casa ou para o centro da cidade. Gasolina o segue e segundo ele, a vira-latas adora andar no trânsito e acompanhar as suas viagens de bicicleta. Esperta, tal qual uma cachorra urbana – modo como Anshau a define -, Gasolina parece saber como não se arriscar em meio aos automóveis. “Ela olha atenta para os dois lados da rua antes de atravessar”, garante.
Apesar dos carinhos e da comida que Anshau lhe oferece, a casa do cobrador não virou a dela porque ela não quis. No posto de combustível, onde ganhou nome e tem amigos, vai de vez em quando fazer uma visita. No resto do dia, vaga pela Rua Presidente Affonso Camargo e seus arredores, que parecem ser o seu verdadeiro lar.
Bóris, o gato intelectual
Em uma das paredes do Sebo Trovatore, em Curitiba, há um cartão-postal de um gato preto em uma avenida européia. Uma etiqueta na foto explica: “Bóris em Paris”. Apenas as crianças acreditam na legenda, mas Bóris, o gato do sebo, é tão chique quanto as atrações da cidade luz. Freqüentador assíduo de galerias de arte e aulas de dança, Bóris já gravou um filme e só come ração de primeira.
O gato de 3 anos vive no sebo desde os 9 meses de idade. Ele dorme no mezanino do local, entre pilhas de livros e partituras. Toda manhã, quando a dona do sebo – e do gato –, Valéria Vargas, abre a porta, Bóris desce elegantemente a escada repleta de livros e sai para percorrer seus pontos prediletos no Largo da Ordem.
Só galerias de arte são duas. Bóris já sabe de cor os horários das aulas de pintura em uma delas, onde acompanha as pinceladas com atenção. Na outra, tem até brinquedos guardados para ele. Na Casa Hoffmann, o gato persa acompanha as aulas de dança contemporânea. “Ele entra de mansinho e vem para o meio da roda onde estamos”, diz o arte-educador Gigio Venturelli. No Memorial de Curitiba, o gato “já é de casa”, segundo os funcionários.
Por onde anda, Bóris leva amarrado à coleira um guizo, cujo barulho já causou problemas durante as orações na Igreja da Ordem. Fora isso e a vez em que chegou ao sebo com uma peteca na boca roubada de uma loja de artesanato, nunca causou incômodos – pelo contrário. O gato acumula fãs por toda parte e tem até comunidade no Orkut.
Mesmo as fiéis que tiveram suas orações atrapalhadas pelo barulhinho do guizo têm motivos para gostar de Bóris. Presas à coleira estão uma medalhinha de Santo Antônio e outra de São Bento. Valéria conta que o seminarista da Igreja da Ordem diz que Bóris “é um gato católico” – protegido por Deus e pela Guarda Municipal, que fica de olho no gato e o impede de ultrapassar sua “fronteira”, a Casa Romário Martins. “É o único gatuno que a gente deixa parar por aqui”, diz o guarda Restorf.
Às cinco da tarde, o gato é recolhido ao sebo, de onde não sai até o dia seguinte. Em janeiro, participou da gravação do filme Mistéryos e ganhou até cachê – R$ 100, revertidos em biscoitos e coleiras. Certa vez, Valéria ficou sabendo que ele bebeu cerveja em um pires no Bar do Alemão. Foi a única. “Cerveja não é coisa para gato.”
Colunistas
Agenda
Animal





