Histórico
Depois de ficar viúva, a simpática d. Emília tornou-se uma figura folclórica no bairro das Acácias. Do portão, vigiava a rua numa bisbilhotice que dava certa tranqüilidade aos vizinhos e, se notava algo diferente, não se furtava a comentar. Não havia briga, roupa nova ou gripe que passasse despercebida por sua atenta vigilância. Também era sabido que, com exceção do café da manhã, ela não fazia nenhuma refeição em casa. Em vez disso, dava sempre um jeito de ser convidada para o almoço, o lanche ou o jantar nas casas vizinhas, aparentando não notar o constrangimento dos que tinham os bifes contados na mesa. Seus pretextos para as visitas variavam. Se fosse preciso, ela dava um jeito de mostrar que estava ali para ajudar o anfitrião:
– Vim só para trazer umas folhinhas de louro – dizia com o sorriso desarmador de vítimas.
A quem ousasse perguntar, dizia que não valia a pena cozinhar porque tinha pouco apetite e, afinal, havia passado mais de 30 anos preparando os pratos favoritos do marido e das filhas. Trazia na ponta da língua a desculpa perfeita para evitar visitas:
– Não convido para entrar porque não tenho nada a oferecer.
Para manter o mínimo estoque da despensa, ia semanalmente às compras, um de seus programas favoritos. Havia também os bailes da sexta-feira no União das Acácias, a missa de domingo, o jogo de tranca das quintas e as tardes de tricô na Ao Rei do Armarinho, antiga loja do bairro. Ia bem arrumada a todos os compromissos, com o cabelo grisalho aparado num coque, saia escura e blusa florida. Usava também um batom discreto e, na pele clara, generosa camada de pó de arroz. Em dia chuvoso, quem estivesse mais à mão era “convidado” a dar-lhe uma carona.
A coisa corria assim no bairro das Acácias. Embora cansada do leva-e-traz e das constantes demandas de d. Emília, a vizinhança relevava tudo em nome da boa convivência. Afinal, era uma velhinha. Certo dia, no degrau da varanda, d. Emília caiu e quebrou o braço esquerdo. Não é difícil imaginar que a fratura rendeu desculpas extras para as investidas às casas – e mesas – vizinhas. Meses depois, já restabelecida, ela deu um jeito de fazer com que Carmem, a professora da casa da esquina, lhe preparasse uma festa pelos seus 70 anos. Tanto queixou-se da solidão e da má saúde que Carmem não teve remédio senão ceder a garagem e arranjar tudo para a comemoração. Pois foi durante a festa, na hora do discurso que insistiu em fazer, que d. Emília anunciou que seus ossos fracos não lhe permitiam mais que fosse ao banco, onde tinha de ficar muito tempo de pé porque ninguém respeitava a fila dos idosos.
De fato, como confirmaram Vilma e Verinha, suas filhas, d. Emília sofria de osteoporose. Mas, embora a recomendação médica fosse para que se movimentasse ao máximo, d. Emília estava decidida a poupar energias para as compras, a tranca e o tricô. Tratou, então, de recrutar alguém de confiança a quem passar a senha e o cartão do banco para os saques da aposentadoria a cada início de mês. O escolhido foi Edgar, filho caçula da Carmem, um pacato estudante de Medicina que só saía para ir à universidade. A idéia de d. Emília tirou-lhe o sossego. Depois de duas noites insones, o rapaz resolveu procurá-la:
– D. Emília, não posso ficar com seu cartão. Não seria certo. Suas filhas é que…
– A Vilma não tem carro, coitada, e a Verinha dirige tão mal…
– Então, peça aos genros ou sobrinhos.
– Não gosto de misturar família nesses assuntos e, você sabe, não tenho jeito para pedir nada a ninguém.
Edgar se conformou. Tem cumprido fielmente a missão há mais de dez anos, embora agora more do outro lado da cidade. É que ele nunca achou jeito de dizer não à adorável d. Emília, agora uma saudável octogenária.
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Na próxima semana, a Peteca está com Helena Carnieri e seu estranho poder.
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