Histórico

Bem dotada

Helena Carnieri é repórter de Economia
30/07/2007 00:15
Acho que sou paranormal. Não levito nem entorto colheres, mas tenho uma habilidade fora do comum para encontrar cabelo na comida. Sei que você também já deve ter passado por isso e vai concordar que uma coisa dessas não traz nenhuma vantagem. Mas como há, sim, males que vêm para o bem, decidi aproveitar as oportunidades de manifestação de meu dom para investigar as políticas de relações com o público das redes de alimentação.
Vou relatar apenas as experiências que tive este ano, para encurtar.
Primeiro, encontrei um espécime castanho, que de alguma forma misteriosa foi se incrustar no queijo prato que integrava meu sanduíche. Era de uma grande rede de fast food. A incrível sorte é que o objeto de estudo estava situado logo no topo do produto, e o vi tão logo aproximei meus dentes de sua superfície suculenta.
Na ocasião, já disposta a coletar dados sobre como as empresas agem nessas circunstâncias, me detive, a um passo do escândalo. Apenas mostrei meu achado à funcionária que vendeu o sanduíche – uma de cabelos castanhos para fora da touca – e obtive uma segunda unidade. Esta, isenta de DNA humano.
Depois de deixar a lanchonete, fiz uma comunicação formal e fui convidada a conhecer a cozinha. A intenção era provar que aquilo pelo que eu havia passado era tecnicamente impossível. Não conseguiram.
O segundo caso do ano também envolveu uma grande rede, mas dessa vez o produto veio via motoqueiro. Chegou intacto, ereto, pronto para ser flagrado. Dessa vez não posso afirmar que se tratasse de material genético de uma pessoa, ao menos não das que eu conheço.
Também fiz a queixa por telefone. Passei por vários atendentes. Expliquei o caso. Esperei. Expliquei. Quando consegui falar com um gerente, ele afirmou que aquilo era impossível. Mas perguntou o que eu queria. Sem jeito de dar de dedo e enumerar as opções de como eu poderia ser dissuadida de minha ira, disse que só queria mesmo informar.
O terceiro foi perto do trabalho. Naquele horário entre as 17 e as 18 horas em que todos estão mortos de fome e competem por salgados nas redondezas, pedi um pão de batata. Já tinha devorado mais ou menos um terço quando encontrei o inevitável – desta vez, um cílio, bem preto. Óbvio que reclamei na hora, já que o lugar é pequeno e não dispõe de um 0800 para reclamações. A funcionária terceirizou a culpa: “Esse não é feito aqui, é uma senhora que entrega”. E achando que iria me amansar, acrescentou: “Não é a primeira vez!” “Puxa, isso muda tudo”, suspirei e sugeri que mudassem de fornecedor.
Há ainda um caso que não pode ser relatado porque envolve um fornecimento familiar, que deixaria pessoas próximas constrangidas – mesmo motivo pelo qual não levei adiante a reclamação.
Acho que estou conformada. Concluí que tem muita empresa do ramo de alimentação não só fora dos bons padrões de higiene, mas também de comunicação. E lanço um alerta a você, que talvez seja tão paranormal quanto eu, mas sem uma “vista” tão boa. Algumas ocorrências podem estar passando despercebidas por sua cavidade bucal.
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