Mas o que será que move alguém – em tempos de crise da prática matrimonial – a juntar os trapos e as escovas de dentes mais de uma vez? Medo da solidão é uma aposta. O apreço pela sensação de apaixonamento é outra. Mas o fato é que a teoria não explica a prática à risca.
Mas o que será que move alguém – em tempos de crise da prática matrimonial – a juntar os trapos e as escovas de dentes mais de uma vez? Medo da solidão é uma aposta. O apreço pela sensação de apaixonamento é outra. Mas o fato é que a teoria não explica a prática à risca.
A doutora em Psicologia, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Paraná Lidia Weber, vai atrás das explicações dos tipos de amor para tentar desvendar os casadoiros crônicos. “São seis tipos ao todo e dois deles combinam com este tipo de comportamento. Um é o amor que beira a mania e o outro é o ludus (brincalhão). Os dois estão ligados ao apego e à vinculação afetiva formados na infância. É o caso da criança insegura que se agarra na saia da mãe para evitar que ela vá embora e que, mais tarde, vai abandonar o outro antes que ele o abandone. E isso é engraçado já que o paradoxo mais bonito do amor é que quando você tem certeza do amor de alguém, você sabe que pode ficar longe dela e que ela vai voltar”, diz.
Outra questão, apontada por Lidia, é quando há uma confusão entre paixão e amor. A primeira é uma reação química que dura alguns meses ou até dois anos e que faz se pensar no objeto de desejo 100% do tempo. O amor, ao contrário, é construção, dá trabalho e depende de um esforço contínuo para ser mantido. “Acontece que algumas pessoas se acostumam à ação dos neurotransmissores e ficam ‘viciados’ na química da paixão. E para manter isso acabam trocando de parceiros.”
Para a psicóloga Cleia Oliveira Cunha, a busca pela novidade e paixão eternas persegue o imaginário das pessoas que consideram seus relacionamentos rotineiros e sem muita graça, fazendo com que elas procurem novas paixões. “Na realidade estes eternos apaixonados não sabem nada de si mesmos e temem a solidão e a falta de afeto. Temem por si só a ideia de estarem sozinhos, o que para eles significa não possuírem qualidades que despertem o interesse do outro. Em sua grande maioria são pessoas imaturas, inseguras, que buscam no outro o que deveriam buscar em si mesmas, logo os relacionamentos se repetem e após um determinado tempo vem o desencanto e a busca por um outro amor”, diz.
Como amar dá trabalho, há quem desista fácil. Aí pode ser que more a outra razão dos que casam demais. Você casa, vive com intensidade a paixão e, quando começa o marasmo da relação, acaba tudo e começa tudo de novo ao lado de outro alguém. “As pessoas têm uma grande dificuldade de lidar com a frustração. Se alguma coisa não sai como o esperado, é mais fácil colocar o outro para fora, como se ele fosse o que não está dando certo, e partir para outra para provar sua competência. E quem não aprende a se responsabilizar vai repetindo o padrão”, comenta a psicóloga Solange Maria Rosset, autora do livro O Casal Nosso de Cada Dia (Ed. Sol). “O casamento não é um fim em si. Ele não é garantia de felicidade”, arremata Lidia Weber.
Eles x elas
Enquanto mulheres sonham em ser amadas e muitas vezes pecam por fantasiar demais o amor, os homens querem apenas ser acolhidos e, por isso mesmo, se arrepiam em pensar nas relações de forma mais complexa. “Eu acho que eles são mais imaturos e têm mais dificuldades em lidar com um casamento e com tudo o que vem com ele. Parte da culpa é nossa, que os poupamos dessas discussões emocionais desde pequenos”, diz Solange Rosset. Talvez por isso, em parte, eles sejam os campeões de enlaces matrimoniais. Ainda que a teoria não comprove nada disso, os homens aparecem mais entre os que casam muitas vezes do que as mulheres: no levantamento informal feito para esta matéria foram pelo menos seis homens com mais de três casamentos, para apenas uma mulher. “Não há nada que comprove cientificamente que o homem seja mais propenso a casar mais vezes. Mas para a mulher, sim, é mais difícil casar, já que filhos e outras preocupações muitas vezes são incompatíveis com novos parceiros”, comenta Lidia Weber.
Agradecimento: Passion du Chocolat, Viviane Malucelli.
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