Todo jornalista deveria guardar um lugar de honra na sua coleção de afetos para aquelas pessoas a quem chamamos genericamente de o “Personagem”. Sem ele, nossas reportagens padecem de graça e de interesse humano. Tendem a parecer relatos frios, inúteis para quem os lê, já que não incluem referências às experiências da vida.
O Personagem é ao mesmo tempo uma instituição e uma aflição para o jornalista. Não é fácil identificar alguém cuja história atenda às necessidades da pauta e, que ainda por cima, aceite dar entrevista e deixar-se fotografar. Em contrapartida, alguns Personagens são tão interessantes, têm tanto a dizer, que a pauta se constrói a partir deles.
Mas no nosso dia-a-dia, sejamos francos: às vezes encontrar o Personagem é pior do que descolar um fiador.
O primeiro sintoma de que o repórter não sabe nem por onde começar vem na forma de e-mail enviado para toda a Redação. Com pequenas variações, o título é “Help!” e a mensagem informa que o colega está atrás de alguém assim, assado, de idade tal, que trabalhe na área X, e por aí vai.
O e-mail interno é um recurso que transforma em Personagem todo parente, amigo ou vizinho de jornalista. Mais cedo ou mais tarde.
Como essa categoria de Personagem pertence, normalmente, à editoria do desespero, nossos conhecidos acabam pagando os maiores micos. Para eles, sobram as pautas em que ninguém quer falar. E dê-lhe mostrar o extrato bancário negativo, o tratamento médico que não deu certo, admitir que não sabe conter a birra do Júnior, reconhecer que já colou chiclete sob a cadeira do cinema ou que perdeu dinheiro numa aventura financeira… Enfim, só insucesso…
Isso não significa que as histórias sejam inventadas ou “melhoradas”, para usar um eufemismo. Os Personagens do jornalista desesperado trazem depoimentos tão verdadeiros quanto quaisquer outros. Mas, se o leitor prestar atenção, seus sobrenomes provocam um certo déjà vu. Claro, você já os viu em assinaturas de reportagens no jornal.
Também não se pense que essa dificuldade é um fenômeno desta Gazeta do Povo. Ela é comum aos jornalistas de todos os veículos, simplesmente porque não existe um “banco de personagens”, mas é preciso muita sorte para se obter uma história exemplar.
Dito tudo isso, caro leitor, quero aproveitar o ensejo para lançar-lhe um comovedor apelo: assuma de peito aberto sua condição de potencial Personagem; não tema dividir sua experiência de vida com outros leitores; lembre-se de que merecerá nosso mais sincero agradecimento e estará incluído em nossas orações.
Se esse relato ainda não foi suficiente para lhe sensibilizar, pense no lado divertido de ser Personagem. Seu círculo de relacionamentos certamente reagirá com simpatia ao lhe ver no jornal. Se quiser recortar a matéria e guardar, sinta-se à vontade. Recomendo inclusive que guarde o recorte no álbum de fotografias das crianças, que sempre rende uma sessão familiar num domingo chuvoso. E que mal há em fazer bonito para aquele cunhado exibido ou a prima esbelta-sem-regime, que nunca saíram no jornal?
Como último recurso, vai um relato assustador: numa sexta-feira dessas, um de nós precisava de uma empresária, na faixa dos 40, casada e com filhos, que tivesse um hobby diferente. Foi bem difícil. Quase sucumbimos a uma funcionária pública, aposentada e solteira, que faz tricô. É que ela topava foto e tudo.
A jornalista Marisa Boroni Valério é co-autora do blog As Candinhas da Cidade e editora de Economia, uma das áreas do jornal que mais precisa de boas histórias pessoais para ilustrar as matérias e ajudar a driblar o “economês”.
economia@gazetadopovo.com.br
Colunistas
Agenda
Animal


