Para a enfermeira aposentada Fátima*, 67 anos, ficar em casa, nem pensar. Com uma energia de dar inveja, ela assumiu o papel de cuidadora de pessoas idosas há oito anos. Atualmente, Fátima passa seus dias auxiliando um homem de 84 anos, que tem dificuldade para falar e se locomover. “Cuido da alimentação, ajudo na higiene, administro medicamentos, saio para passear e dou toda a atenção que ele precisar pela manhã, tarde e noite”, conta a cuidadora profissional.
Fátima atua numa função cada vez mais requisitada, pois o envelhecimento da população brasileira está em ritmo acelerado, como comprovam as estatísticas. Hoje, existem no país cerca de 23 milhões de pessoas com mais de 60 anos, mais que o dobro do registrado em 1991 e o equivalente a 11% da população do Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O geriatra José Mário Tupiná, professor de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), conta que o Brasil está envelhecendo cinco vezes mais rápido do que o continente europeu envelheceu. “E nós não estamos preparados para isso. Não temos infraestrutura para suportar a situação”. A começar pela não regulamentação da profissão de cuidador de idosos, o que obriga os profissionais a serem enquadrados como prestadores de serviços domésticos.
Quando contratar
Tupiná explica que a idade cronológica não pode ser o único determinante para se ter um cuidador. “O que realmente importa é a idade biológica da pessoa, que depende basicamente do seu estilo de vida”, justifica. De acordo com o geriatra, dois fatores devem ser observados para a contratação deste tipo de profissional: a capacidade de tomar decisões (lucidez) e o grau de dependência do idoso, isto é, o que ele consegue e o que ele não consegue fazer.
Para o geriatra Mauro Roberto Piovezan, do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a família é a principal testemunha do dia a dia do idoso e tem papel fundamental na tarefa de observar suas ações e de ver quando algo não está bem. “Não podemos encarar como características naturais da velhice o fazer coisas erradas, a perda de memória e gestos e falas repetitivos. Se algo está assim, é porque o idoso precisa de ajuda”, atenta Piovezan.
Mas os especialistas são unânimes: nem sempre a operação de convencimento em aceitar um cuidador é um sucesso, pois dependerá da lucidez e do estado cognitivo do idoso, que pode variar de acordo com a patologia. Em geral, muitos idosos consideram um cuidador como uma pessoa estranha que invade a casa, a privacidade e o orgulho. “A relação inicial entre o idoso e o cuidador é sempre difícil. Mas, com o tempo, um se acostuma aos hábitos do outro”, conta a pedagoga Elizabeth Piovezan, especialista em envelhecimento e diretora-presidente do Instituto Alzheimer Brasil, que prepara e apoia cuidadores de pacientes com Alzheimer.
Em geral, a carga horária média de trabalho de um cuidador de idosos gira em torno de oito horas diárias e a renda mensal varia de um salário mínimo a R$ 4 mil, dependendo da formação do cuidador.
Recentemente, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) reconheceu o vínculo empregatício de um cuidador que atua três vezes por semana em uma residência no Rio de Janeiro.
*Nome fictício a pedido da entrevistada.
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