Quem perde a visão, vence a tristeza e se recria desenvolvendo autonomia e competências. O que não passa de discurso para a maioria dos mortais, para quem é privado de algum dos sentidos é questão de sobrevivência. Explica-se: a primeira é fundamental para fugir da dependência de um vidente (quem enxerga) e a segunda, a forma de permanecer e se mostrar ativo numa sociedade que estranha o diferente.
“O engraçado é olhar para tudo o que eles fazem sem enxergar e ainda os considerarmos deficientes. Eu acho que o termo muitas vezes se aplica a nós e não a eles. Os cegos podem não enxergar, mas usam todos os outros sentidos com uma eficiência de cair o queixo”, diz Ana Luiza Valente, psicóloga do Instituto dos Cegos do Paraná. O instituto oferece aulas de mobilidade (como caminhar com a bengala, desenvolver a lateralidade e a autonomia), alfabetização, esportes, profissionalização, terapia comunitária, mas, acima de tudo, batalha pelo fim do estigma carregado pela cegueira.
“Tem gente que acha que cego é aquele coitado que mendiga na porta da igreja. Estamos lutando para mostrar que o deficiente visual é capaz de ser um bom profissional. Basta que tenha oportunidade. Só que isso ainda não ocorre de forma espontânea. Precisamos nos amparar nas leis que obrigam as empresas a contratarem um porcentual de funcionários deficientes (5% a cada 100 funcionários). E muitas delas nos pedem pessoas com um grau mínimo de deficiência. Que tipo de inclusão é essa?”, questiona José Juarez Martins, presidente da Associação dos Deficientes Visuais do Paraná (Adevipar), entidade que também presta auxílio aos portadores da deficiência, e assessor especial da prefeitura para assistência à pessoa com deficiência.
Acessibilidade
A inclusão do cego esbarra em um problema bem visível, estrutural, que muitas vezes o impede de ir e vir. Basta uma caminhada pelo centro para ver que a cidade melhorou em relação ao que era há cinco anos atrás, mas a acessibilidade ainda deixa a desejar: calçadas sem rampa de acesso, faixas de pedestres alinhadas com postes e placas, orelhões (o deficiente não alcança com a bengala o poste de sustentação e bate a cabeça na cabine telefônica projetada para frente) e calçadas em péssimo estado. Se você acha um exagero, acompanhe , nem que seja de longe, um deficiente visual pela rua. As trombadas são inevitáveis. Eu nem precisei de uma venda para tropeçar na calçada lateral do instituto antes da entrevista. Quem me recebeu por lá se compadeceu com o ocorrido e aproveitou para emendar o recado: viu como a cidade precisa melhorar? (LJ)
Serviço
Instituto Paranaense de Cegos, fone (41) 3342-6690.
Adevipar, fone (41) 3349-1101.
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