Desde criança sempre tive interesse por saber como as coisas funcionavam, queria compreender os mecanismos que estavam por trás dos movimentos dos brinquedos, da imagem na tela de tevê, do som nas caixas acústicas, para compreender a magia que fazia as coisas ganharem vida. Desmontava tudo que estava ao meu alcance. Sempre com muito cuidado, pois era importante trazê-las intactas de volta a vida. Decidi estudar eletrônica. Os primeiros anos em uma escola técnica não foram fáceis, novas possibilidades não faziam parte dos ensinamentos, apenas fórmulas prontas e métodos formatados para uma linha de produção industrial, mecanizada e sem graça alguma. Meu sonho de construir “asas” encontrou um ambiente sem espaço para voar. Decidi concluir o curso sem abrir mão de buscar novos ares. E sutilezas suspensas passaram a chamar minha atenção, como as pessoas com seus modos e seus hábitos, o seu jeito de se vestir. Naquele instante descobri que não precisaria ir tão longe, que poderia trabalhar com espaços mais próximos, a segunda pele das pessoas. Decidi então, há 29 anos, fazer moda.
Você dedicou um bom tempo da sua carreira à moda, como estilista e consultor. Mas houve um rompimento (ou um questionamento) nisso quando fez o desfile do papel, na SPFW. O que motivou você a isso?
Nunca rompi com a moda. A performance aconteceu em uma época em que eu questionava (e ainda questiono muito) as referências, aquilo que acontecem no nosso entorno. Somos expostos a uma quantidade de informação tão grande que as pessoas não digerem, não decodificam, elas apenas engolem. Era importante realizar naquele momento um trabalho questionando esse conteúdo, o conceito por trás dessa forma, mostrar um trabalho que, mesmo destruído, permanecesse vivo na memória e que criasse esse questionamento. É como se você o sacrificasse para torná-lo eterno. E em um lugar que não fosse uma galeria de arte, mas na cabeça das pessoas. E como você está me perguntando hoje, 8 anos depois, é um trabalho que continua trazendo um questionamento sobre a materialidade, sobre o valor, mostrando que somos conscientes e que buscamos algo mais. Serviu também para criar referências para os novos criadores, mostrar que existem caminhos, valores e ética necessária em qualquer área.
Depois desse momento, como direcionou sua carreira?
Atualmente tenho me dedicado à moda por meio de palestras, workshops, consultorias e desenvolvendo projetos a convite de instituições, museus e fundações no Brasil e no exterior. Há trabalhos meus expostos nos museus da Nova Zelândia, e França e projetos para a Itália e Inglaterra. Hoje meu trabalho é mais voltado para o desenvolvimento de uma cultura de moda.
Em outra ocasião, você disse que a moda – assim como cinema, literatura e música – é um meio para a experiência artística. Mas quando é que a moda assume esse papel? Porque na maioria das vezes ela é mercantil. A experiência artística se dá na criação, na apresentação ou na roupa propriamente dita?
Moda, cinema, literatura, música, pintura, instalação, performance, cultura, tudo espelha a realidade. São retratos de um momento. Atravessar esse espelho e mergulhar em um universo onde ocorre a suspensão da realidade e se vivenciam novas possibilidades para o real conferem ao meio, à obra, o status de arte. A experiência artística pressupõe diálogo e troca entre as partes, obra e observador. Sem que ocorra esse fluxo e alteração de estados, a arte não existe. Não importam os meios – moda, cinema, literatura, música, pintura, escultura, instalação, performance –, mas os caminhos traçados pelo observador dentro da obra e a descoberta de novos mapas para o real.
Como a roupa é capaz de fazer fluir essa experiência artística e não ser apenas uma vestimenta? Que atributos ela precisa ter?
Quando a roupa, vista ou vestida, em um espetáculo ou experimentação, provoca um novo insight ou uma transformação, ela assume o papel artístico.
A roupa veste o corpo ou é capaz de ir além disso? Demonstrar grupos, intenções, discursos?